sábado, 23 de maio de 2015

Sossega-me.

"Tomás, acorda, por favor. A minha rotina gira à tua volta. Os pais discutem, acordo-te. Tenho fome, vens comigo à cozinha. Choro e estás sempre lá para me abraçar. Preciso de ti indepentemente da situação em que me encontre. Esta noite não consigo adormecer de todo. Ouvi a mãe dizer que está farta de fingir que está tudo bem quando na realidade não está. Achas que a culpa é minha? O pai sai cedo de manhã e quando volta nunca tem tempo para brincar comigo, ele diz que precisa de recarregar energias para o dia seguinte, mas acaba sempre por trancar-se no escritório durante horas. Então e eu, Tomás? Os pais dizem que tu não existes e que eu sou tolo por criar pessoas na minha cabeça... É mentira! Diz-me que é mentira! Talvez só digam isso porque não te conhecem, um dia irei provar o contrário. Tu és o único que estás sempre presente. O que achas do céu esta noite? Não se vê nenhuma estrela da janela do meu quarto. Será um sinal? Mas de quê? Não sei bem. Continuo a ouvir o pai a gritar com a mãe. Tenho medo. Eles vão deixar-me? De certeza que sim... A vida deles antes de eu aparecer era muito melhor. No outro dia perguntei à mãe se ela e o pai iam separar-se como aconteceu com os pais da Catarina... "As pessoas deixam de gostar umas das outras", disse-me ela. Ao fim ao cabo não respondeu à minha pergunta, mas sabes? O que ela disse não é verdade. Podemos pensar ter deixado de gostar da pessoa e, depois de um tempo, apercebomo-nos que não conseguimos viver sem ela ao nosso lado. Lembras-te do dia em que eu quis deitar fora o robô que o pai me deu nos anos? Eu achava que já não gostava dele por ele ter ficado deformado depois de ter caído da cama, só que não o fiz porque podia brincar com ele à mesma e assim o pai não ficaria triste. Porque é que os pais não fazem o mesmo? Porque é que eles não percebem que não podem ter deixado de gostar um do outro? Eles costumavam ser tão felizes... O que é que mudou? Talvez por eu ter aparecido... Tomás, eu não quero que os pais me deixem. Eu não quero ter de passar pelo que a Catarina passa. Ela diz que às vezes prefere ficar sozinha porque os pais discutem os dias em que cada um fica com ela. Estou cansado. Acho que vou adormecer. Acorda-me quando os pais pararem de discutir. Tomás, acorda-me quando tudo acabar."

Sem comentários:

Enviar um comentário