segunda-feira, 18 de maio de 2015

Desamor.

"Os nossos olhares cruzaram-se no meio da multidão. Aproximámo-nos, observámo-nos, beijámo-nos e o resto nem às paredes ouso confessar. Adorava que tivesse sido tão repentino o quanto imaginei, mas na verdade não foi. Ficámo-nos pela distância de olhares trocados durante, pelo que me pareceu, milésimos de segundos. Poderia ter ficado a soirée inteira a observá-la do outro lado da sala se o meu pai não me tivesse pedido ajuda nos preparativos da celebração da missa dominical. Não cheguei a saber o nome dela nem tão pouco a ouvir o som da sua voz. Esperançoso por uma próxima vez em que o destino juntasse muito mais do que uma visão silenciosa e longínqua de dois corpos que anseavam por se encontrar, sonhei noites seguidas com o nosso reencontro. Falava já como se tivesse a certeza de que ela reparara em mim, uma alma perdida que andava a vaguear por entre centenas de rostos. Não desisti, prometo que não o fiz. Quando menos esperava, ela caiu-me aos pés. Teoricamente tropecei no caminho dela, veio parar-me aos braços, e senti-lhe o aroma tão doce quanto o azul reluzente do seu olhar que aclarava em dois tempos a sua face. Perguntei-lhe o nome, "Julieta", respondeu-me ela. Julieta... O nome do meu futuro grande amor. Aliás, já a sentia minha desde o primeiro segundo em que a olhara. Quando o amor nos toca, sentimo-nos desarmados, sem chão e o vento faz questão de levar a pouca inteligência que nos resta. Falo-vos por experiência própria. Depois de sentir o calor dela junto ao meu peito, o meu pensamento andou a deambular entre ficar ali ou simplesmente ficar ali. Duas opções com uma única saída: deixá-la ir embora. Sim, cheguei à conclusão que ela não me pertencia, nunca chegou a pertencer-me. Não era propriedade minha, nem tão pouco viria a ser. Ela era muito mais do que eu, possuía mais do que devia, via mais do que podia. Eu não passava de mais um que a amava em segredo, que imaginava mil e uma maneiras de acordá-la todas as manhãs, que não se importava de dar a própria vida para poder ver o sorriso dela ao deitar, que percorria cidades, desertos, mares, continentes, tudo isto por um abraço aconchegante dela. Amei-a loucamente sem mesmo dar conta de todos os objetivos pelos quais deixei de lutar. Amei-a loucamente quando só fui um pretexto para ela amar outro. Amei-a loucamente quando acreditei que algum dia ia chegar a ter algum espaço no coração dela, por mais pequeno que fosse. Amei-a loucamente com tudo o que tinha para amar. Amei-a loucamente porque acreditei que ela me amasse de volta. Amei-a loucamente todos os dias da minha vida. Deixei-me de lado para poder amá-la loucamente. Esqueci-me de mim por ela. Esqueci-me de viver por ela. Não a julgo nem tão pouco a culpo por não ter chegado a amar-me. Esteja ela onde estiver, espero que se tenha apercebido, através daquele primeiro olhar, o quanto a amei. Nunca cheguei a dizer-lhe, mas ela foi tudo o que nunca pude ter e que sempre sonhei alcançar. Mesmo se o tivesse dito nada teria feito diferença. O sorriso dela era a minha única alegria. Eu amei-a loucamente. Mas hoje não a amo mais."

domingo, 3 de maio de 2015

Unidas pelo coração


Querida mamã,
Escrevo-te por um motivo em especial. Adivinha que dia é hoje: o teu. Para além de todos os outros dias em que estou contigo, hoje, sinto uma enorme vontade de te dizer tudo um pouco do que me transmites.
Convido-te a viajares comigo, através da memória, ao ano de 1995. De certeza que tens imensas recordações da tua passagem de ano para aquele que viria a ser o melhor de todos os que até aí viveras. Conheceste o amor da tua vida, antes de me conheceres a mim, claro (modéstia à parte). Poucos dias se passaram e, sem hesitares, disseste o tão esperado "sim" e até os anjos conspiraram a favor da vossa união. Precisamente dois anos e oito meses depois nasceu a vossa menina (eu). Sei que fui desejada e que me amaste desde o primeiro segundo em que te disseram que ias ser mãe. 
Como foi teres um coração a bater na tua barriga durante nove meses e duas semanas? Qual foi a sensação de dares à luz outra vida? Como é ser mãe? Como conseguiste abdicar de muita coisa por mim e, anos depois, pela minha irmã? Tantas perguntas e só tu tens a resposta a todas elas, ou talvez não. Quando eu fôr mãe, o grande sonho de qualquer rapariga, quero ser como tu, mas nunca serei melhor do que tu és.
Agradeço-te do fundo do coração por tudo o que já fizeste por mim. Pelas horas de sono que perdeste para eu parar de chorar, pelas olheiras com que ficaste depois de uma noite mal dormida por eu estar doente, pelo que não comeste porque eu queria, por teres estado presente em todas as minhas quedas. Um grande obrigada por todos os motivos que me dás, diariamente, para eu sorrir e ser feliz. 
Mãe, não tenho palavras para te descrever. Talvez sejas a descrição impossível da perfeição, mas a verdade é que existes. Costuma-se dizer que Deus está no céu e tu na Terra, adequa-se ao teu perfil. Quando pensares que falhaste em alguma coisa, deixa simplesmente de pensar. Sempre foste minha conselheira, mãe e melhor amiga. 
Digo-te, com todas as letras, que me arrependo muitas vezes das palavras inoportunas e das atitudes inadequadas que tenho para contigo, juro que não faço por mal. Para te recompensar sempre tentei, com vergonha de dizer um simples desculpa, amar-te da melhor maneira que posso, acarinhar-te e oferecer-te o melhor que posso: a minha presença. Obrigada por nunca teres desistido de mim, de me ajudares a entender a diferença entre o certo e o errado e, principalmente, por nunca teres sido tu a fazer as coisas por mim. Obrigada por me concederes o privilégio de crescer enquanto ser humano. 
Prometo deixar-te orgulhosa e tornar-me na mulher com M grande que tu és. Guerreira, humilde e implacável, tens todas as qualidades que existem. Agradeço todos os dias a Deus pelo maior presente que já me deu até hoje: chamar-te de mãe!
Amo-te com todas as minhas forças.
A tua filha,
Sofia


"Uma mãe é de aço. O aço é uma liga de ferro e carbono. O ferro é o símbolo da força e o carbono é o elemento presente em todos os organismos vivos. Uma mãe constitui a ligação entre a fragilidade e a força do indivíduo. Não há algo mais vulnerável e mais sólido do que a maternidade." Achei bastante interessante este pensamento. Neste dia tão especial que é o dia da mãe, para além de não haver altura nem estação do ano específicas para valorizarmos quem temos ao nosso lado, não é demais relembrar à nossa mãe o quanto gostamos dela. Não se esqueçam que ninguém é eterno, amem, digam que amam e demonstrem o vosso amor antes que seja tarde. Mãe só rima com mãe, isto porque não existem duas nem três iguais, é única e exclusivamente nossa. Feliz dia da mãe a todas as mães do mundo!

domingo, 5 de abril de 2015

Carta para o meu antigo eu.

Querida Sofia do passado,
Passaram-se uns cinco ou seis anos desde a última vez que nos cruzámos e desde aí que não tenho parado de pensar em escrever-te. 
Gostaria de começar por dizer-te que não foi fácil ganhar coragem em remexer nas coisas que deixaste comigo, ou talvez em mim, parece tão recente. Com o tempo acabarás por aceitar tudo o que te acontece e entender que estava escrito assim.
É constante a angústia que sinto cada vez que me lembro das nossas longas conversas a meio da noite, quando o sono era escasso e o choro vinha sempre à tona. Quando o silêncio da noite era perturbador e o medo de estarmos sozinhas pairava sobre o ar. Acredita que esses tempos acabaram, não precisas de te preocupar mais com isso. Lembras-te de eu ter dito que tinha a certeza que as coisas iriam melhorar? Aqui tens a prova disso. 
Não te entusiasmes tanto com a vontade de conquistar o mundo, preocupa-te antes com quem está por perto e, principalmente, contigo. Eu sei que nunca quiseste falar do que (e de quem) mais te magoou, acredita que devias tê-lo feito desde o início. Digo-te isto porque sei que agora estás muito melhor, podes ainda não ter esquecido mas estás bem e só isso importa. Aproveita cada momento como se fosse o último. É mesmo essa a realidade, não vives a mesma situação duas vezes. Não procures agradar a toda a gente, ainda hoje existem pessoas que não te suportam e, no entanto, estás feliz. 
Estás de parabéns! Não, não fazes anos. Caíste tantas vezes, não esfolaste só os joelhos, pensaste em desitir mas acabaste sempre por reerguer-te. Estou tão orgulhosa de ti. Fizeste novas descobertas, criaste novos laços, conheceste lugares que jamais pensaste vir a conhecer, apaixonaste-te e, mesmo quando pensaste que já não restava nenhuma saída, soubeste dar a volta por cima. 
Tenho a certeza que te vais rir quando te disser que ainda vais ter muito para viver. Ainda vais ter muitos corações para quebrar (talvez por seres demasiado tu, modera-te, sê mais doce). Entenderás que a vida não é como queres que seja. Irás perder algumas pessoas pelo caminho, mais tarde aperceber-te-ás que só faziam peso na tua vida, que fruta podre cai sozinha, e que te impediam de avançar. És forte. Lembra-te disso. Tu consegues, basta quereres.
Nunca me irei arrepender do nosso passado, nem tão pouco querer mudá-lo. Foi uma fase marcante e importante na construção de tudo o que hoje faz parte das nossas vidas. Continuas aqui, bem presente e, ao mesmo tempo, tão distante. Obrigada por me teres dado a oportunidade de crescer. Só te peço para rires com maior frequência. Concede mais importância aos pormenores, àqueles que te parecem tão insignificantes, acredita que são os que fazem toda a diferença. Sê tu própria. A vida é muito mais do que esperas. Ora amarga, ora doce. Cada um faz dela o que quer e nós, querida eu, fizemos, até hoje, um bom trabalho. 
        
Um beijo gigante vindo do futuro,
Sofia